O Câmbio e as Pombas

Contrastes da vida, que são as obras de imaginação ao pé de vós!
Vinha eu de um banco, aonde fora saber noticias do câmbio.
Não tenho relações diretas com o câmbio; não saco sobre Londres, nem sobre qualquer outro ponto da terra, que é assaz vasta, e eu demasiado pequeno.
Mas tudo o que compro caro, dizem-me é culpa do câmbio. “Que quer o senhor que eu faça com este câmbio a 9 ?” perguntam-me. Em vão leio os jornais; câmbio não sobe de 9. O que faz é variar; ora é 9 3/4, ora 9 3/4, outra 9 3/8. Dorme-se com ele a 9 15/16, acorda-se a 9 3/4. Ao meio-dia está 9 1/2. Um eterno vaivém na mesma eterna casa. Sucedeu o que se dá com tudo;habituei-me a esta triste especulação de 9, e dei de mão a todas as esperanças de ver o câmbio a 10.
De repente, ouço dizer na rua que o câmbio baixaria à casa dos 8. A princípio não acreditei; era uma invenção de mau gosto para assustar a gente, ou algum inimigo achara aquele meio de fazer mal. Mas tanto me repetiram a notícia, que resolvi ir às casas argentarias saber se realmente o câmbio descera a 8. Em caminho quis calcular o preço das calças e do pão, mas não achei nada, vi só que seria mais caro.
...Afinal deixei a contemplação das pombas e fui-me à farmácia, a uma das farmácias que há naquela rua. Ia comprar um remédio; pediram-me por ele quantia grossa. Como eu estranhasse o preço, replicou-me o farmacêutico: “Mas, que quer o senhor que eu faça com este câmbio a 8 ?”.
Como ao grande Gama, arrepiaram-se-me as carnes e o cabelo, mas só de ouvi-lo.
A vista era boa, serena, quase risonha. Quis raciocinar, mas raciocínio é uma cousa e medicamento é outra; saí de lá com o remédio e um acréscimo de quinhentos réis no preço. Contaram-me que já não há tostões nas farmácias, nem tostões, menos ainda vinténs. Tudo custa mil-réis ou mil e quinhentos, dois mil-réis ou dois mil e quinhentos, e assim por diante.
E continua...
Esta é uma pequena parte de “O câmbio e as pombas” do grande Machado de Assis, escrita em Agosto de 1896, e não em Agosto de 2008.
Neste ano do centenário da morte do maior nome da literatura brasileira Joaquim Maria Machado de Assis, poeta,romancista, dramaturgo, contista, jornalista, teatrólogo brasileiro, além de inúmeros cargos públicos.
Sua obra consiste de nove romances e nove peças teatrais, 200 contos, cinco coletânea de poemas e sonetos e mais de 600 crônicas
Pelos vistos parece que a mais de cem anos já conviviamos com a crise herdada dos americanos.
Paulo Santos
Presidente
psantos@aromadaterra.com

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